Sei que o certo teria sido eu escrever o adjetivo “fugidias” para definir tudo aquilo que me ocorre para escrever aqui no blog mas que, se eu não ajo a tempo, desaparece. Só que tenho a impressão de que as danadas das ideias fugitivas são rebeldes, sabem exatamente o que estão fazendo e intencionalmente escapam de mim, em mirabolantes sequências de filme de ação, para ir buscar outro paradeiro mais acolhedor, no pensamento de alguém mais receptivo e menos ocupado, é isso. Deixa elas.
Às vezes, pode acontecer de voltarem, assim como quem está só dando uma passadinha, e eu conseguir recuperar algum resquício, que registro aqui, mas não é sempre. Esses dias, tinha estruturado todo um texto edificante, mas sem sequer uma palavra-chave para fazer o sistema reativar, sou totalmente incapaz de dizer qual era o assunto, que dirá escrever alguma coisa.
Mas ontem eu realmente não quis passar nem perto de computador. Foi dia de faxina e eu me transformo em outra mulher. Depois ela vai embora, mas deixa minhas impressões digitais, em especial da mão direita, dado o contato com os produtos de limpeza, tão esfareladas, que é como se quisesse me lembrar de que, sim, ela também tem seus direitos, ela também está no pedaço, pelo menos de 15 em 15 dias.
Como vocês podem perceber, minha hipóteses sobre as ideias rebeladas e a faxineira interior levam a crer que estou numa vibe algo conspiratória, mas não tem nada disso não. Estou em paz comigo e com o mundo. Descobrindo aspectos que eu sequer supunha. Como o gostoso que pode ser conviver regularmente, sobre uma base de pura simpatia mútua, ainda que sem nenhum vínculo, com pessoas de quem, muitas vezes, nem se sabe o nome – alguém num comércio próximo, um dono de cachorro que é amigo do seu…
Minhas alegrias também tem mudado. Antes eu estava sempre à espera de acontecimentos marcantes (uma inclinação quase operística). Mas atualmente são as pequenas as melhores alegrias. A paz e o sossego. Querer pouco. Não faltar nada. Saber que existe justiça por parte de Deus. E que Ele, como pai amoroso, nunca nos deixa totalmente a descoberto, e por pior que seja o momento que estivermos atravessando, dá um jeito de enviar um gesto de amor por caminhos nada óbvios.
Eu não quero prender as ideias, pelo contrário: tudo que eu puder fazer para que circulem por aí, as minhas e a de todo mundo, estou colaborando. Que elas venham, tantas e tão intensas, que eu não consiga mesmo dar conta de acompanhar.



